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A Freguesia

Freguesia do concelho e comarca de Torres Vedras. dist.. dioc. e rei, de Lisboa. JVIameJé. POP.: 4.886 hab. em l .Ufa l togos. Dista 14 km. da sede do cone. e está situada próximo da margem esquerda do rio Sizandro. Tem serv. de correio, feito pela est. post. de Torres Vedras, esc. pnm. e destil. de aguardente vínica Na área desta freg. existe uma nascente de água mineral, hipossalma, denominada Quinta de Charnichu. Não. resta dúvida alguma de que muitas centenas de anos antes do séc. XII ou princípios da Nacionalidade, com que começa, a bem dizer, a história desta freg., existia no seu território, antes mesmo da dominação romana, pois assim o mostram não só a situa¬ção na zona abundantemente arqueológica de Torres Vedras mas principalmente os vestígios locais da exis¬tência ou estância de povo', primitivos. O principal indí¬cio do facto está na estação arqueológica, junta e acima da Quinta de Charniche, com o seu notável monumento funerário do tipo tholos, que ocupou arqueólogos de renome como Virgílio Correia e Leite de Vasconcelos: circular, pré-histórico, produziu abundante espólio, em que se encontram caveiras humanas e outros ossos, facas de sílex, pontas de seta de cobre, vasos de barro negro, machados de calcário, ídolos cilíndricos, etc.: e outros vestígios de alta antiguidade apareceram nestas imediações. Apesar disto, não pode aceitar-se um povoa¬mento continuado do território desta freg. desde épocas Mondego e Tejo e especialmente a zona litoral: um acen¬tuado, e frequentes vezes completo, despovoamento devido às lutas de dominação árabe ou cristã. A topo¬nímia desta freg. não oferece provas de incontestável anterioridade em relação ao séc. XII, isto é, à reconquista definitiva e repovoamento de Torres Vedras e seu termo; e, no entanto, ela é de uma singular exuberância e de um raro valor linguístico. Algumas espécies têm mesmo, sem a menor contestação, ligações germânicas nesse ponto de vista e não recentes: Gualdipeira e Guilhal-meira, por exemplo, apresentam nos elementos iniciais os temas gard- (*Gardipeira), que entra em topónimos do norte do País como Guarda (-muito abundante) e outros com ele relacionados (Guardão, Guardizela), todos antigamente assim iniciados, e vilja, que formou na mesma região norte abundantemente topónimos (Guilhade, Guilham.il, Guilhabreu), todos antigamente também assim iniciados. Topónimos de tão remota ori¬gem (na aparência) e com tão extraordinária formação, sabido que a antroponímia germânica, a que eles devem o aparecimento não admitia senão dois temas, e nestes casos o segundo é substituído por um ou até dois sufixos portugueses, às vezes com consoantes eufómcas (como o -p- e o -m- de Gualdipeira e Guilhalmeira), representam casos de repovoamento medieval, com uma ou mais famí¬lias provenientes de localidades nortenhas denominadas por um antropónimo germânico cujo primeiro tema era um daqueles. E outros topónimos há nesta freg. que parecem reflectir o mesmo facto histórico, como Moxar-reira (talvez, antes, *Moçarreira, alusiva a gente de Monçarros, ant. Mozarros ?) e Serpijeira (não alusivo a Serpa, pois isso seria dar ao movimento colomzador medie¬va um sentido contrário à verdade histórica, mas a Serpins — talvez, por isso, antes, *Serpmzeira), e ainda, talvez, Charniche (acaso, anteriormente, Carniche, que produ¬zisse aquela forma por assimilação, e, por isso, porventura relacionável com topónimos do norte, como Carnicães, e até da região estremenha: Carnota, Carnide, Carnaxide). As derivações, nestes casos, são muito particulares e algo fantasistas, mas não parece por isso menor a sua realidade (que tern perfeito parale'o em Ermigeira, Ribal-deira, etc., neste mesmo cone.). Aos topónimos Gualdi¬peira, Guilhalmeira, Moxarreira, etc., pode aqui ajun¬tar-se Bordinheira, o mesmo, possivelmente, que, antes, *Bordonheira (de Bordonhos, pov. beiroa). Mas a riqueza toponímica desta freg. não para nisto, pois são histórica e linguisticamente notáveis, entre outros, os seguintes nomes: Alumeara, que mais não parece ser que o arcaico' apelativo *a)meara < <'a/menara>> ( < ar. alminara), um sinal da dominação arábica de Torres Vedras; Arneiros, '• de algum termo arcaico *arneiro ( < lat. *arenariu-), de sentido geológico, ou derivado de «arna», cujo signi¬ficado no norte do País não parece relacionável sempre com o presumido étimo (lat. arena); Bemposta, topónimo quase frásico (Cp. Cedofeita), muito antigo e vulgar no Norte; Bonaval, talvez de «boa valle» (com este termo ainda feminino, como aparece nos inícios da Nacionali¬dade, e no sentido nortenho de propriedade rústica «vallada», com -n- eufónico e não devido ao étimo de «boa»); Carrasqueira e Carregueira, topónimos «botânicos" (o segundo, derivado de *cárrega < lat. *caríca, de carex); Cheira, por certo de um apelativo arcaico *cheira, pois seria recuar demasiado para o termo de Torres Vedras arqueologia local; Fernandinho, que nada deve ter com o -diminutivo moderno, mas com o antigo hipocorístico Fernandio (séc. XII-XIV), de Femandino, possessor loca de um casal ou outro prédio rústico; Infesto, do termo arcaico «anfesto» (séc. XII-XIV), significando subida; Matelas, diminutivo medieval de «mata»; Moçafaneira! derivado, talvez, de «moçafe» ( < ar. moshat), outro tco de arabismo, relacionado com a dominação dos mouroi em Torres Vedras; Mogo, que deve ser o arcaico «mogo» marco divisório, mas, apesar da antiguidade, talvez. demasiada na região, pode referir-se a monges («mogoi < < lat. monac/ju-); Moinho do Frade, que • não pode dizer-se relacionável com aquele topónimo; Montengrão curioso topónimo de Negrão ou só Monte Negrão (Cp! Valongueiras, de Vale Nogueiras, antes Vale de Noguei¬ras); Recomeira, derivado, sem dúvida, de «rico-homem» (popular, rico-home > rícome), indicando originariamente a propriedade de um tenente de Torres Vedras ou outro nco-homem; Xaranche, aue deve ser o mesmo que «enxara anchai > *Xiranche (do termo arcaico «enxara» < ar. ex-xara, novo eco do arabismo de Torres Vedras, e do termo romance «ancha» < lat. ampla); t ainda Vale de Galegos, com este termo aludindo a colonizadores medie¬vos estrangeiros (nada de surpreender na Estremadura). Esta exuberante e bastante singular toponímia supre de algum modo a falta de documentação directamente res¬peitante ao território desta freg. norinícios da Nacionali¬dade, e revela suficientemente a época e características do seu repovoamento após a Reconquista. Apresenta ela ainda dois hagiotopómmos. S. Martmho e S. Mamede, indícios não menores de antiguidade, especialmente o segundo pois que o primeiro santo é ainda venerado e o segundo não passou talvez dos princípios da Monarquia, sendo muito singular, de facto, o aparecimento de S. Mamede na metade sul do País — o que só pode expli¬car-se considerando a elevada antiguidade do seu culto local, talvez ainda sob a dominação arábica (o que não tem espanto, por muitas razões sabidas e até porque perse¬verou bispo em Lisboa até à reconquista afonsma, que o vitimou e à maiorh da população moçarábica, não reconhe¬cida cristã pelos cruzados). Quanto ao topónimo principal, Ventosa, lug. onde se edificou a igreja, não é fácil precisar a que se refere o adjectivo originário «ventosa». Relacio-nar-se-á -talvez, com alguma fortificação ou construção arábica (do género das reveladas pelos topónimos Moça¬faneira e Alumeara, isto é, de «almenara» e «moçafa»). Da igreja de S. Mamede, diz, por informes locais, Pinho Leal que^cérriuito antiga, mas não se sabe quando nem por "quem foi construída». É de três naves, e aqui apresentava cura o abade das igrejas de Santiago de Torres Vedras, tendo o pároco, ainda nos finais dos padroados, 64 alqueires de trigo, trinta almudes de vinho e 7 mil réis em dinheiro, por ano (ou, segundo outras notícias, talvez rep~rtando-se a épocas diferentes, 64 alqueires de trigo. 120 de cevada, 30 almudes de vinho e 57 mil réis em dinheiro). Parte da batalha do Vimeiro, em 21-VIII-1808, desenrolou-se nesta freg.: «Crenier, brigadeiro de Bonaparte (escreve Pinho Leal), com a sua brigada se fez forte em um viso desta freg.; mas não pôde resistir ao arrojo indomável do exér¬cito luso-anglo, que atacou os franceses à baioneta calada, pondo-os em completa derrota». No administrativo, a freg. foi sempre termo de Torres Vedras, e participou por isso dos seus forais. A esta freg. pertencem os lug. de: Adesjas, Arneiros. Azinhaga, Barro Vermelho, Bemposta, Pedreira, Pedra, S. Mamede e VentosaJP

 
[Reprodução Audio] Data de 23/06/2010
 

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